INSEGURANÇA

Invasões de casas e criminalidade se alastram no Jardim das Américas

27 Junho 2017 14:44:56

Até hoje foram 12 incêndios de imóveis. Órgãos públicos não sabem quantos moradores contemplados pelo programa permanecem no bairro

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Foto: Kelly Ramos
Casas são queimadas e 'depenadas'. Invasão de imóveis é outro problema recorrente. Não se sabe quantas famílias já abandonaram as casas

Dados do Corpo de Bombeiros de Irati mostram que desde a sua inauguração, em 2015, o Jardim das Américas teve 12 casas incendiadas, fazendo com que o bairro passasse a ser conhecido pela população como ‘Jardim Botafogo’. Ao total, o conjunto conta com 310 casas, todas de alvenaria e com a infraestrutura necessária, como redes de luz e água, além de ruas asfaltadas.

Hoje, grande parte das pessoas que vivem nesse conjunto não são as que foram contempladas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. A comercialização do imóvel sem a sua devida quitação é considerada nula e sem qualquer valor legal, acarretando uma série de medidas aos contemplados pelo programa habitacional.

Recentemente, os incêndios voltaram a fazer parte da rotina do Jardim das Américas. No dia 17 de junho, um sábado, uma casa foi incendiada durante o dia, por volta das 17h30. No local, não havia nenhum morador. A casa fica na Rua Ari de Antônio Martins, mesma via onde no último dia 27 de maio houve registro de incêndio em outro imóvel.

Uma moradora, que permanece no bairro desde a sua inauguração, explica que fora os incêndios, que segundo ela são ordenados de dentro da cadeia de Irati, os moradores sofrem com furtos e roubos. “Não dá para deixar a casa sozinha nunca. Tem pessoas que colocaram grades em tudo, mas os ladrões entram pelo forro”, explica.

A mulher fala que taxistas não vão até o bairro depois das 18h e também motoboys não entregam gás, pizza, remédio ou qualquer outro pedido delivery. Segundo ela, apenas um taxista circula pelo bairro e o valor da corrida acaba sendo mais caro. “Ninguém quer subir, porque eles colocam galhos nos dois acessos do bairro, obrigando os motoristas a pararem o carro para assaltarem”, relata.

Só restaram as paredes

Uma das contempladas do Jardim das Américas não conseguiu ficar morando no conjunto. Próximo ao feriado de Carnaval do ano passado, quando voltou do trabalho, viu que sua residência havia sido arrombada. Do local levaram tudo o que podiam, inclusive o lixo do banheiro. “Eles arrombaram a porta, mas antes jogaram uma pedra na janela para ter certeza de que não havia ninguém na casa. Apenas o sofá havia sido deixado, mas já no outro dia, eles voltaram e tacaram fogo nele, incendiando grande parte do quarto”, lembra.

A mulher afirma que chegou a ver várias pessoas levando o que havia restado da sua casa, como o vaso sanitário, portas e janelas. “Perto da Páscoa soube que estavam retirando as telhas. Agora, a casa está sem o muro pré-moldado, os portões e grades, que também roubaram. Em resumo, ficaram só as paredes”, conta.

Ela disse que registrou o caso na polícia, mas não resultou em nada. “Ficou por isso mesmo, ninguém fez nada. Os moradores podem ter até visto, mas não falaram por medo. Eu havia comprado tudo praticamente novo. Entrei com o processo na Caixa Econômica em busca do seguro, mas até hoje não obtive resposta. Não quero participar de outros programas de habitação, porque prefiro pagar aluguel. É um trauma que fica e tive que recomeçar minha vida do zero”, lamenta a vítima.

As moradoras preferiram não ser identificadas na reportagem por medo de represálias.

Participação popular nula

A reportagem da Folha conversou com o subcomandante da 8ª Companhia Independente de Polícia Militar, capitão Luciano Romão, sobre a criminalidade no bairro Jardim das Américas. Entre os aspectos apontados por ele está à necessidade da polícia – integrante da sociedade - participar da seleção das pessoas que são cadastradas para serem contempladas em programas habitacionais, fato que não ocorre.

Romão explica que a própria comunidade acolheu algumas pessoas alheias às leis e recém saídas do sistema penitenciário. “A comunidade acabou dando o primeiro passo para essa situação, a partir do momento que acolhe essas pessoas. Até hoje, tivemos apenas duas denúncias formais sobre o que ocorre no bairro, de pessoas que preferiram não permanecer lá para não se incomodar. Com as informações, realizamos uma operação no ano passado, que infelizmente acabou com o óbito de uma pessoa em confronto com os policiais”, explica.

O subcomandante fala que por iniciativa própria a PM realiza patrulhamentos, operações, arrastões em estabelecimentos comerciais, abordagens na entrada e saída do bairro, averiguando pessoas e veículos. “Através do nosso segmento reservado fazemos levantamentos e sabemos quem são aqueles que comentem delitos. Prisões ocorrem, assim como cumprimentos de mandados, mas a polícia usa o princípio da imparcialidade e não pode ficar apenas em um bairro. Há também o resto da cidade que precisa de atenção”, destaca.

Romão afirma que a PM continuará atuando e que a comunidade também deve fazer a sua parte. “Hoje, a participação da população do bairro é mínima, zerada. Por mais que saibamos quem são, precisamos de relatos, provas e embasamento para realizar determinadas ações”, expõe.

SEM CONTROLE

O chefe do Departamento de Habitação da Prefeitura de Irati, Roberto Sequinel, conta que hoje ninguém sabe dados exatos de quantas famílias contempladas pelo programa habitacional permanecem no Jardim das Américas. “Todos os dias há negócios de imóveis lá. Uns vendem, outros alugam ou abandonam. Fomos até a Caixa Econômica Federal, em Ponta Grossa, que expôs que o problema do local é de segurança pública”, explica.

Sequinel fala que há 27 denúncias de invasões de imóveis e que uma comissão será formada para fazer levantamento sobre quem está habitando o conjunto. “A Caixa irá notificar as pessoas que tiverem irregulares nos imóveis e quem não sair será acionada a Polícia Federal para remover”, conta.

Hoje, em Irati, o Departamento de Habitação tem uma lista de 2.170 pessoas que necessitam de moradias.

NOTA

Com relação à Faixa I do Programa Minha Casa Minha Vida, a Caixa Econômica Federal esclarece por meio de nota que a comercialização do imóvel do programa, sem a respectiva quitação, é nula e não tem valor legal. Quem vende ou aluga fica obrigado a restituir integralmente os subsídios recebidos e não participará de mais nenhum programa social com recursos federais. Já quem adquire irregularmente perderá o imóvel. Esta condição é informada ao beneficiário por ocasião da assinatura do contrato. A Caixa não reconhece contrato de gaveta.

“Quando há denúncia do descumprimento desta regra, a Caixa notifica os moradores para que comprovem a ocupação regular do imóvel. Caso fique comprovada a venda do imóvel para terceiros, a Caixa protocola notícia-crime na Polícia Federal e adota medidas judiciais cabíveis, no sentido de buscar a rescisão do contrato e a reintegração de posse do imóvel”, diz a nota.

Denúncias sobre o uso irregular, invasão, venda ou ociosidade de imóveis podem ser feitas através do telefone é 0800.721.6268. A ligação é gratuita.

 

 

 

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