Palavra de São MIguel
Apontar, não para acusar

Apontar não para acusar

 

Rodrigo Ribas

Paróquia São Miguel

Estamos habituados a sempre apontar o dedo para julgar o outro, no entanto, nos esquecemos que ao apontar um dedo a alguém, apontamos ao menos três para nós mesmos. As atitudes de acusação compõem uma realidade que perpassa as gerações, tendo grande destaque até mesmo no período de Jesus, onde Ele próprio se depara com diversas situações em que é acusado por fazer algo que incomoda: o bem.

O período quaresmal é um convite para que mergulhemos no cerne do nosso coração e avaliemos a nossa própria vivência, tanto pessoal quanto comunitária, colocando na balança as atitudes do cotidiano. Nos ensinamentos de Jesus, encontramos diversas ocasiões onde as atitudes das pessoas são confrontadas com a realidade, causando eventos de mal-estar entre o povo. No Evangelho de João 8, 1-11, encontramos um episódio no qual Jesus é posto frente a frente à uma mulher adúltera, sendo exigido Dele respostas. Contudo, as respostas esperadas pelos acusadores não eram em busca da solução do problema, mas, para “acusá-lo” (v. 6), já que para os escribas e fariseus ali presentes, não importa o bem feito por Jesus, mas sim o desejo que Ele erre.

A partir dessa colocação, dois pontos nos chamam a atenção: primeiro o fato de Jesus não olhar o erro da mulher pecadora, mas a sua atitude, ou seja, ao ser jogada ao centro, mais do que se encontrar com a multidão ali presente, ela se depara consigo mesmo e a partir disso nasce o arrependimento. Salientando, o que se condena é o pecado e nunca o pecador: a este, deseja-se a conversão. O segundo aspecto que destacamos aqui, é a atitude inoportuna daqueles que acusaram Jesus, observemos que todas as vezes em que Jesus é acusado, é porque ele está fazendo o bem: a superação do saber pura e simplesmente humano incomoda. Para os escribas e fariseus permanece o imperativo categórico, ou seja, seguir a lei pela lei. Para Jesus, o mandamento da lei, é o amor.

Hoje, Jesus continua sendo acusado, em seus filhos. Apontar o erro do outro é mais fácil do que reconhecer suas virtudes e, infelizmente esta tem se tornado a atitude certa e aceitável, como diz o velho ditado uma árvore que cai faz mais barulho do que centenas que nascem. O exemplo de Jesus diante da mulher adúltera deve nos servir de exemplo: acolher o outro com tudo aquilo que ele traz consigo, dando-lhe a oportunidade de recomeçar e se for para apontar, que seja o caminho do recomeço e não as falhas.

Por conseguinte, orientar a vivência a partir do bem – ou do amor – é uma atitude de coragem, é colocar-se como aquele que vai a frente em um campo de batalhas, preparado para receber acusações e aprendendo a superá-las. C.S.Lewis (2017) em seu ensaio intitulado “Caridade”[1] afirma que “O único lugar fora do céu onde você pode ficar perfeitamente seguro de todos os problemas e perturbações do amor é o inferno,” ou seja, o caminho é difícil, mas não impossível, por mais difícil que seja viver no amor, é gratificante.

O cotidiano da vida não é uma linha tênue, ao contrário, é composta de altos e baixos, superações a recomeços. Aprender com os erros é a atitude de quem aprendeu a caminhar. Se for apontar, que seja o caminho certo.

 

[1] C.S.Lewis. Os Quatro Amores. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017.