Aldeia Natal: documentário preserva cultura e identidade das raízes ucranianas

Sthefany Brandalise

Uma jornada pessoal iniciada no interior do Paraná e concluída na Ucrânia deu origem ao novo filme “Aldeia Natal”, do diretor e produtor Guto Pasko. Relacionamentos familiares, religiosidade, imigração, tradição cultural e a busca pelas raízes dos antepassados são alguns dos temas abordados no filme, que terá première perto de onde toda a história de Pasko começou.

Foto: GP7 Cinema

O documentário foi produzido por Andréia Kaláboa e Guto Pasko, sócios da GP7 Cinema e filmado entre 2018 e 2019, com locações em Queimadas, área rural de Prudentópolis, e na Ucrânia. No país europeu, a equipe esteve na região oeste em novembro de 2019, distante dos territórios invadidos pelos russos.


Guto destaca que é importante criar registros cinematográficos para preservar a memória da história da família e da herança eslava como um todo. “Estamos produzindo filmes que tratam da nossa própria história, que tratam da história da imigração ucraniana, do resgate cultural, da imigração eslava como um todo. Chegou um momento que eu entendi que era importante também fazer esses registros para que ficassem como memória da nossa história”, disse.

Com 98 minutos de duração, a obra retrata o retorno do cineasta Guto Pasko a “aldeia natal”, em Queimadas, e a busca por se reconectar com os pais, os irmãos e o legado histórico e cultural dos antepassados. Este processo lento e gradual de reaproximação termina com a viagem à Ucrânia, onde ele, o pai (João Pasko) e a mãe (Cecília Ternosky Pasko) percorrem aldeias isoladas procurando rastros dos antepassados que emigraram e parentes ainda vivos.

“É meu retorno para minha própria aldeia natal em busca das minhas origens”

Guto Pasko


“É um filme que retrata a história da minha família. É meu retorno para minha própria aldeia natal. Eu fiquei um tempo distanciado da família, da comunidade, então é o meu retorno em busca das minhas próprias origens. Ninguém sabia nada dos antepassados. Então a gente foi para a Ucrânia, atrás da aldeia natal de onde saíram os antepassados”, conta Guto.

Uma das tradições familiares ucranianas mais antigas é a de pagar promessas fazendo com que um dos filhos dedique a vida à igreja. No caso da família de Pasko, profundamente religiosa, uma graça foi concedida, e o escolhido para retribuir o favor divino foi ele, o mais velho de 11 irmãos. O jovem não aceitou a imposição e aos 11 anos saiu de casa, mudando-se para Curitiba. Uma irmã mais nova, de apenas nove anos, foi então, enviada para um convento, substituindo-o na promessa. “Esse filme é um acerto de contas. Eu costumo dizer que do meu próprio passado, porque eu saí de casa muito cedo por conflitos e questões de religião. Meu pai queria que eu fosse padre, pois para eles é muito importante ter alguém da família que seja religioso, e como eu não queria seguir essa promessa gerou um certo conflito na época. E agora o filme retrata esse resgate, essa reaproximação”, conta o diretor.


Ao longo do tempo, detalhes e elementos da história vão sendo esquecidos, e é necessário documentar e preservar essas narrativas para as futuras gerações, afirma Guto. “Eu acho que é fundamental para a gente resgatar a nossa história, pois aos poucos as coisas vão se perdendo. Então, finalmente entendi que, já que trabalho no cinema, também tinha como responsabilidade retratar minha própria história, a minha própria cultura, minha própria origem. Embora a aldeia natal fale da história da minha família e dos meus antepassados, indiretamente fala também de qualquer família de descendente de ucranianos. Não só a minha história, é a nossa história enquanto Irati, enquanto Prudentópolis, enquanto Paraná. É a nossa história como um todo”, afirma Guto.

A experiência de produzir o documentário representou uma vivência nova para Guto e sua equipe, pois os levaram a uma jornada de busca de informações na Ucrânia. Essa busca representou uma oportunidade de reaproximação com as raízes culturais e familiares, estabelecendo uma conexão que havia sido perdida. “O grande desafio foi fazer um documentário que não interessasse só para o Guto, só para família do Guto ou só para os demais integrantes da comunidade, mas que ele fosse universal. Foi uma experiência, uma nova vivência, uma reaproximação. A gente foi quase que no escuro, procurar os rastros dos antepassados na Ucrania, para reestabelecer essa conexão familiar”, finaliza Guto.

Filme retrata o retorno do cineasta Guto Pasko a sua “aldeia natal” – Foto: GP7 Cinema

Estreia aconteceu nesta quinta-feira (03), e reuniu grande público no Cinema.com. Autoridades locais também estiveram presentes.

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