Cine Theatro Central: 100 anos na memória de Irati

Na sexta-feira (28), comemora-se a inauguração do antigo cinema do município, que completaria 100 anos em 2020. E está nas lembranças dos iratienses

O Cine Theatro Central foi o mais antigo cinema de rua do Brasil, em 1920, data da sua fundação, era o segundo cinema a abrir as portas no Estado do Paraná; e João Wasilewski foi o mais antigo exibidor de cinema do mundo a permanecer com a mesma sala de espetáculos durante 62 anos de sessões cinematográficas ininterruptas. “Então o cinema foi um local de encontro da comunidade, muita gente, os jovens, quantos ali se encontraram e acabaram casando, depois vieram os filhos, porque o cinema funcionou por mais de 60 anos, na mão do seu João, funcionou por 62 anos e ele foi considerado o mais antigo exibidor de cinema do mundo, o cinema ficou na mão de um único proprietário durante 62 anos, que foi de 1920 até a ocasião do falecimento dele” explica o professor, jornalista e memorialista José Maria Orreda (in memoriam), na entrevista concedida em 2013, presente no documentário “A História do Cine Theatro Central de Irati”.

Para mensurar o recorte acerca da história do Cine Theatro Central, é preciso pensar a trajetória de João Wasilewski, que fomentou este amor pela sétima arte e trouxe o cinema para Irati. No início do século XX, Irati, segundo os entrevistados, Júlio Wasilewski (in memorian), Jose Maria Orreda (in memorian) e Jose Maria Gracia Araujo, era uma cidade emergente em busca de progresso, modernidade, industrialização e novas tecnologias. Este reordenamento urbano equiparou Irati com os grandes centros, principalmente a capital do Estado, Curitiba, apenas a 150 de distância. Em1920, Irati já possuía o segundo cinema do Paraná, ficando atrás somente da capital. João Wasilewski, nascido na Polônia, em1898, chegou a Irati no dia 31 de dezembro de 1911e em 1916 comprou a padaria do seu patrão, onde trabalhava há dois anos. No ano de 1918, adquiriu aparelhagem de um cinema ambulante, “Nessa época, tornou-se o primeiro motociclista de Irati e região com sua Indian de dois cilindros. A moto também acionava o gerador de eletricidade para a lanterna do cinema” como conta Júlio Wasilewski (in memorian), na entrevista concedida em 2013, presente no documentário.

Casou-se em 1919, com D. Magdalena Burko Wasilewski, e o Cine Theatro Central foi inaugurado em 28 de agosto de 1920. João Wasilewski, na década de 1970, já era considerado, pelos sindicatos de indústrias cinematográficas do Paraná e Santa Catarina, como o mais antigo exibidor cinematográfico do Brasil, e o Cine Theatro Central, o mais antigo cinema brasileiro. Nessa trajetória, segundo Orreda, João Wasilewski fomentou o desenvolvimento cultural da cidade, já que o espaço do cinema foi palco para inúmeras outras atividades, não apenas usado para a projeção de filmes. Este fator deu ainda maior relevo e notoriedade à pessoa de Wasilewski e ao seu cinema, a ponto de ser identificado como exemplo de cidadão de Irati, pois promovia seu desenvolvimento social e cultural. João Wasilewski teve uma presença marcante em Irati, sendo o fundador do Clube Polonês, da “Escola Polonesa", na Sociedade Polonesa Liberdade – Towarzystwo Polskie Wolnosc, Clube do Comércio, Maçonaria, Rotary Clube também foi secretário do Cônsul Polonês em Irati, com o objetivo de se comunicar com a antiga pátria Polônia, pois, havia muitas famílias polonesas.

Segundo Orreda, ainda na entrevista concedida em 2013 para o documentário “O cinema do Wasilewski, foi, em determinada época, ponto de encontros culturais, políticos, artísticos, sociais, promoções beneficentes; festas em benefício do Hospital e outras instituições, colações de grau, festividades cívicas. No dia da criança, em outubro, há mais de 25 anos, João Wasilewski vem oferecendo, gratuitamente, sessões cinematográficas aos alunos das escolas de Irati. João Wasilewski, cidadão de Irati”, ressalta o jornalista.

Primeiro automóvel de Irati, o Cine Theatro Central e os cartazes do artista Primo Araujo.

Fonte: WASILEWSKI, Pedro Henrique. Acervo, 2015.

Acima uma foto do Cine Central com o primeiro automóvel de Irati, que, segundo a lembrança de Júlio Wasilewski, era de propriedade dos Zarpellon. Fazendo uma leitura da imagem, é possível chegar à conclusão de que foi tirada em 1930, pois na rua ainda não existe calçamento, o cinema é de madeira, os cartazes do Primo Araujo à frente, informando a população dos filmes. Interessante refletir e ver vários símbolos de cultura, arte e progresso em conjunto em uma só imagem, o primeiro veículo, o cinema visionário e a arte estampada. O Cine Theatro Central de Irati era, no início, de madeira, mas com dois andares, camarotes, instalações sanitárias e bar anexo. O cinema funcionava com o projetor Pathe Freres, movido à força manual, e vários iratienses fizeram parte desse momento. Uma curiosidade é que tinha que ter um cuidado com a manivela do projetor que era manual, rodando os filmes de forma sincronizada, para que fosse constante a velocidade. O Cine Theatro Central exibia filmes mudos em 1920; e para trazer sua vida de e emoção, João teve a ideia de formar um grupo de músicos, havia música ao vivo, fazendo fundo musical para os filmes mudos. O filho Júlio Wasilewski, o neto Pedro Wasilewski Almeida e o memorialista Jose Maria Gracia Araujo, lembram que os intervalos durante as sessões se faziam obrigatórios, pois eram necessários para se trocar os rolos dos filmes e dar continuidade, já que no início era só uma máquina que fazia as projeções entre as duas partes das sessões.

Com a evolução tecnológica do cinema no mundo, novas oportunidades apareciam e o Cine Theatro Central acompanhava as atualizações, trazendo a oportunidade para a população iratiense de ter algo que só os grandes centros podiam oferecer. No ano de 1930, o modernismo chegou na cidade e o fundo musical era feito através de um equipamento que se chamava, segundo Júlio,“Phonografo, que possuía um amplificador musical com válvulas para manter sua intensidade sonora. O Cine Theatro Central, foi um dos primeiros a trazer este equipamento que era importado da Alemanha, e também era conhecido pelo nome de Panatrope”, completa a fonte. A cidade ia crescendo e novidades vinham aparecendo de maneira constante, e o ano de 1933 marca a chegada de outra inovação tecnológica, um sistema sonoro mais moderno, mas não tão fiel à sincronização com as imagens. Nas entrevistas que fazem parte do documentário A História do Cine Theatro Central de Irati, Júlio Wasilewski e Jose Maria Gracia Araujo explicam que “Alguns iratienses, sentiam estranheza e ao mesmo tempo graça,quando o mocinho do filme falava com a voz da mocinha, ou os tiros de revólver em filmes de bang-bang, soavam muito depois que o bandido já estava morto no chão, esta inovação chamava-se de Vitafone, o som era gravado em discos de vinil e reproduzido separadamente” frisa Araujo.

Rua XV de novembro, Cine Theatro Central de alvenaria, década de 1930/1940. Fonte: WASILEWSKI, Pedro Henrique. Acervo particular, 2013. 

Em 1936, ano que marca em âmbito mundial um clássico do cinema mudo, o filme Tempos Modernos, de Charlie Chaplin, e o Cine Theatro Central agora funcionava em nova casa de alvenaria, com cabines amplas e dois projetores. Nessa fotografia podemos ver os grandes cartazes pintados à mão pelo artista Primo Araujo. Uma das curiosidades que envolvem essa construção e a evolução do cinema, segundo as lembranças de Júlio Wasilewski e Jose Maria Gracia Araujo, era que o prédio de alvenaria foi construído em volta da estrutura de madeira sem modificá-la, para não causar interrupções na programação, pois, segundo as entrevistas, a população iria ficar muito brava se houvesse alguma paralisação nas exibições. Por conta disso, após o término da construção de alvenaria foi tirada a estrutura antiga de madeira, não interrompendo a programação fílmica. Uma curiosidade é que o menino na foto é Júlio Wasilewski, junto com o seu pai, João Wasilewski, vistoriando a construção.

Construção em alvenaria do Cine Theatro Central, década de 1930.Fonte: WASILEWSKI, Pedro Henrique. Acervo particular, 2017. 

E em 1948, o Cine Theatro Central recebeu sua última reforma, que durou até o encerramento das suas atividades, em 1983. No aprimoramento final, recebeu uma nova máquina de projeção importada dos Estados Unidos da América, de nome Super Simplex, última palavra em projeção; sua sala de espetáculos recebeu poltronas modernas, acomodando mais de novecentos e cinquenta lugares e melhoramentos em sua concha acústica.

Interior do Cine Theatro Central, em 1948; João Wasilewski é o primeiro ao lado direito.Fonte: WASILEWSKI, Pedro Henrique. Acervo particular, 2013. 

Na foto, João Wasilewski é o primeiro na fila da direita, com alguns amigos que não foi possível identificar, no interior recém-reformado do Cine Theatro Central, em 1948. Uma curiosidade é que a criação do projeto para a primeira reforma, em 1936, o cinema passou a ser de alvenaria, e a segunda reforma, em 1948, foi feita pelo filho de João Wasilewski, o engenheiro civil José Jacob Wasilewski.

Fica claro que o Cine Central cresceu e evoluiu junto com a cidade; de um barracão de madeira evoluiu para o prédio de alvenaria, em 1936 e depois, sua última reforma com uma moderna sala com dois projetores e mais de novecentos e cinquenta lugares, em1948, passando junto com a população que o frequentava por todas as fases do cinema mudo, preto e branco, sonoro e colorido. Torna-se possível enxergar que ao longo de muitos anos após a sua inauguração o Cine Central solidificou ainda mais a sua participação nas ações que envolviam a comunidade e sua sociabilidade, estendendo suas raízes para várias fatias da sociedade, cedendo sua sala para encontros políticos, encontros beneficentes e culturais, para angariar fundos para a construção do Hospital e à APAE de Irati, participando de formaturas, peças teatrais, dia das crianças, festivais musicais e até casamentos.

CINE CENTRAL UMA JANELA ABERTA PARA O MUNDO

O Brasil com essa cultura capitalista focada na modernidade e com ritmo de desenvolvimento urbano desenfreado não possui uma educação patrimonial. Um ponto interessante de ser pensado é que o cinema em Irati fechou suas portas no ano de 1983, justamente em um período de transformações no que tange à participação social da comunidade na identificação e proteção de seu bem patrimonial. A Constituição Federal de 1988 definiu, no parágrafo 1º do artigo 216, que o poder público com o apoio da comunidade deve assegurar a proteção de seus patrimônios, é algo que deve ser construído em conjunto. Os municípios devem enxergar essa importância, identificando-se com os seus patrimônios para depois se pensar em uma forma de preservação. Algo que não aconteceu, segundo alguns relatos por conta de representantes políticos que não tinham uma visão arraigada dos temas que envolvem educação e sensibilidade cultural e patrimonial, que não viam aquele espaço como importante, algo que pode ser facilmente visualizado e contextualizado por meio das constantes decepções e escândalos culturais brasileiros ainda vigentes em tempos atuais.

A emergência da televisão também contribuiu para que, em grande medida, muitas pessoas deixassem de se interessar pelo cinema, na fase de 1980 a 1990. É possível aliar esses fatos e enxergar o contexto nacional que refletiu em Irati, diminuindo o público cinéfilo. O prédio no qual o Cine Central funcionava foi arrendado, um mal que aconteceu com inúmeras casas de espetáculos em todo o Brasil. Hoje temos uma loja comercial tomando o lugar de um importante patrimônio cultural de Irati, naquela época. O Cine Central foi importante “naquela época”, deixando uma crítica, houve certa falta de importância dada à história do município. Preserva-se uma história oficial, pautada na imigração eslava com seus elementos religiosos e laboriosos. No entanto, as transformações dessa população de imigrantes e descendentes ao longo do século XX, em especial aquelas que correspondem ao surgimento de novas sociabilidades por meio das mudanças tecnológicas, caso do cinema, por exemplo, são pouco analisadas.

Ademais, as pessoas parecem não se importar mais em saber de onde vieram, como foram formadas, quais as suas histórias, que sociabilidades construíram. Vivem em constante mudança como deve mesmo ser, mas sem estar em sensíveis perante esses fatos importantes que constituem boa parte do que elas são hoje. A cultura de preservação existe da seguinte maneira: funciona no dia a dia, quando o pai ensina ao filho algo que aprendeu com o seu avô, ou quando o neto descobre uma história de seus antepassados e isto o encanta, levando-o a estudar e descobrir e construir histórias, contribuindo para memória, cultura, identidade e patrimônio de sua sociedade; é assim que a preservação trabalha.

Deve-se pensar em políticas para integralizar esses saber esculturais locais; para que eles possam ser preservados, é preciso dar visão, focar em ações chegando a esses variados grupos que emanam cultura em nossas sociedades. Só assim será possível um aprendizado importante no futuro e também para entender quem somos, pois isto é fruto das variadas manifestações nas pequenas coisas e informações passadas de geração em geração, construídas e discutidas diariamente, dos pequenos gestos e modos, dizeres e fazeres é que mora a preservação e seus laços culturais e memoriais.

Desenvolver esta pesquisa histórica foi mais uma forma de fazer com que o cinema se torne presente sem a sua estrutura, sem suas paredes, mais vivo e presente no imaginário da comunidade. Percebe-se que mesmo com a participação social da comunidade iratiense na salvaguarda de seu patrimônio cultural, ele não conseguiu ser tombado, por falta de apoio das políticas públicas vigentes na década de 1980, e posteriormente, 1990 e 2000, em Irati.

Que bom seria se as lembranças cuidassem de preencher o espaço que antes ocupavam, “eles”,o Cine Central e Seu João Wasilewski já não existem. Mas tem lugar de honra nas memórias, na vida de quem o frequentou e usufruiu de suas presenças. De modo um pouco desiludido, comprova-se o lugar comum, foi-se o cinema e a vida continuou. Investiguei e passeei pelo labirinto histórico das lembranças dos entrevistados e colaboradores desta pesquisa, voltando no passado no qual, segundo eles, todos se conheciam, as casas amanheciam sem cadeados e o tempo parecia passar mais lento, pois estavam encantados com o cinema e o que ele proporcionava, que era algo além do que só sessões cinematográficas, era o ponto de encontro da cidade.

DEPOIMENTOS

"Acho que ninguém tira do seu João o mérito da pessoa que mais trabalhou com cultura".

Luiza Nelma Fillus – Professora e membro da ALACS.

“O cinema foi um local de encontro da comunidade, muita gente, os jovens, quantos se encontraram ali e acabaram casando”

José Maria Orreda (in memorian) – professor, jornalista e memorialista (entrevista concedia a Pedro, em 2013)

“Um dos lugares, talvez, mais frequantado pelo povo iratiense”

Jose Maria Gracia Araujo – Artista plástico e memorialista

“O Cine Theatro Central está na história da cidade e na minha, meu pai trabalhou lá projetando filmes e depois pintando cartazes, e eu passei minha infância e adolescência toda assistindo aqueles fenomenais filmes da atlântica”.

Denise Stoklos – Dramaturga, encenadora e atriz

Assista ao vídeo da História do Cine Theatro Central de Irati.