Moinho da família Kurzydlowski preserva um passado cheio de lutas

Construído em 1972, foi movido a água e a energia elétrica Hoje, guarda lembranças da dedicação e muito suor

Na comunidade de Colônia 4, em Mallet, a família Kurzydlowski preserva o moinho construído em 1972, que é passado por gerações, apesar de não funcionar mais, a família busca manter a essência do local. O moinho atendia cerca de 200 famílias da localidade.

Foram 110 dias trabalhados para concluir a estrutura da obra. Clemente Kurzydlowski, proprietário do moinho, tinha 18 anos na época, e trabalhou muito na construção, ele conta que seu pai decidiu fazer o moinho em um terreno que não tinha nada, ficava há cinco quilômetros de distância da casa, fizeram um paiol para esquentar o almoço enquanto trabalhavam. Quando o moinho passou a funcionar, a família Kurzydlowski fez uma casa mais próxima e passou a moer trigo e outras sementes para as pessoas da região.

Os produtores levavam as sementes a cada dois ou três meses, conforme a quantidade que iriam consumir, para não estragar os alimentos. A cobrança era feita por quilo de sementes moídas.

Na construção, tudo era feito com muito encaixe, buscava-se utilizar poucos pregos, a pedra responsável por toda a força do moinho, que fazia o processamento pesa mais de meia tonelada, para colocar esta peça foi usado força braçal dos que trabalharam arduamente para montar tudo o que é preservado até hoje.

A pedra responsável por moer as sementes precisava ser afiada, como antes não havia as ferramentas que existem hoje, que facilitam este processo, era preciso usar a talhadeira e o martelo. Ficavam até duas semanas afiando a pedra, por ser muito dura, se tornava difícil de afiar a parte de baixo e a de cima.

Clemente e seu filho Dalvio Kurzydlowski explicam como era moído o trigo, e contam que o cheiro e o sabor do trigo eram muito melhores do que do trigo comprado. “Quando faz pão ou bolo, o cheiro e o sabor não têm comparação com o que a gente compra no mercado. Dá saudades do tempo de infância”, disse Dalvio.

O moinho funcionou até 1977, segundo Clemente, foi preciso parar com o serviço porque o açude de água rompeu e ficou parado por muitos anos. Com o surgimento da energia elétrica voltou a funcionar, não sendo mais movido pela água e sim pela luz. “Nós reformamos e adaptamos o moinho, antes meu avô e meu pai trabalharam com ele movido a água, depois eu e meu pai reativamos ele movido a luz”, explica Dalvio.

Este moinho tem um diferencial dos demais já acompanhados pela nossa reportagem, ele tem dois compartimentos, um para processar o fubá, e outro para a farinha de trigo. “Uma parte do moinho faz a farinha fina, tem um tecido que peneirava a farinha, deixava ela muito fina, já o outro compartimento era para a farinha mais grossa, de centeio, farinha integral. Para sair a farinha no ponto ideal era preciso passar quatro vezes o trigo. Era possível descascar o arroz também, usando este moinho”, disse Clemente.

Os fragmentos da engrenagem da roda d’água estão guardados até hoje, ficavam em baixo do moinho, uma parte se encaixava na outra e formava uma roda de dois metros de diâmetro. A roda d’água que ficava dentro do rio não existe mais. “Ricardo Kuzera é o responsável por ter montado toda a engenharia do nosso moinho. Por não ter condições de fazer uma cobertura na época foi perdido. O rio tinha muito mais água, agora, a correnteza está bem fraca, mas se deixasse trancado até a noite, a água acumulada já dava para trabalhar com aquela água e girar a roda do moinho”, afirma Clemente.

As anotações com os nomes das pessoas que levavam os alimentos para moer estão guardados até hoje em um caderno que preserva esta rica lembrança, o que mostra a abrangência do moinho sendo que o número de famílias era muito grande, assim como, eram de diferentes localidades. Lá está o nome e sobrenome de cada pai de família que por ali passou, é um caderno de registro, na época servia, para ter um controle, agora, é quase uma fonte histórica.

“Vinham pessoas que moravam a 18 quilômetros ou mais, vinham de carroça e gastavam o dia aqui, além de tudo tinha que esperar a pedra esfriar, às vezes chegavam pessoas aqui para moer e não conseguíamos moer. Tinham que deixar os produtos aqui e a gente marcava o dia para virem buscar. Antes, era no fio do bigode que combinavam as coisas, hoje seria tudo mais fácil com o telefone é só avisar”.

Eu gostaria de ter um dinheiro para reformar este moinho e deixar para os filhos e netos, como meu avô e meu pai fizeram, conseguiram deixar ele em pé até hoje. Se reformasse o moinho a gente poderia fazer uma farinha caseira, sem agrotóxicos, mas trabalhando na agricultura e sustentando a família não sobra para este investimento”.

Dalvio fala que seria necessária a ajuda do governo para reativar o moinho da família, pois tanto se fala em cultura e turismo, e o moinho poderia ser aberto ao público. “A minha recordação é da infância aqui, cuidava do meu irmão, estudei só até a 4ª série, mas não me arrependo, porque estamos vivendo do nosso jeito e não tenho do que reclamar”.

“São muitas as lembranças na minha cabeça, lembro de quando estourou o tanque e eu corri o que pude para ajudar, fiquei muito triste com aquilo, foi muito serviço que no fim virou em quase nada. Era todo o investimento e suor da família que acabou se perdendo com uma chuva grande que veio e levou. Depois que isso aconteceu, pudemos reconstruir, meu pai já era de idade, fez cirurgia, eu fiquei praticamente sozinho, os outros irmãos se mudaram”. Clemente relata emocionado por lembrar de tantos momentos de luta que passou pela sua família.

Clemente preserva as serras que foram usadas para cortar os pinheiros que formaram o moinho. Em uma mesa de marceneiro ele guarda as ferramentas utilizadas no empo da construção do moinho. A maioria das tábuas eram cortadas com encaixes para utilizar o mínimo de pregos. Algumas madeiras eram cortadas para fazer quadros e decorar a casa, tudo feito à mão.