Reflexões de um ex-cônsul japonês

Livro de Akihiro Nakae analisa questões do nosso país à época, em 1992, e quarenta anos depois a visão do cônsul ainda parece atual

Juraci Barbosa

Ajustando uma prateleira, me deparei com o livro “Vale a pena lutar pelo Brasil na visão de um Cônsul”, do então cônsul do Japão no Brasil em 1992 Akihiro Nakae.

Nos anos 70, se debatia sobre o desenvolvimento da América Latina e do Sudeste Asiático. A primeira passou a década de 80 estagnada. O Brasil demorou a despertar para o desenvolvimento. As mudanças eram muito lentas na América Latina. Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura se desenvolveram.

Nakae visitou 100 cidades em 20 estados e conheceu inúmeros problemas brasileiros, mas acreditava que a experiência do Japão poderia solucionar os problemas e o país poderia ser o centro dos investimentos internacionais.

Takashi Goto, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa no Brasil, baseado em um provérbio chinês, comentou: “Não há chances de conceber duas coisas ao mesmo tempo”. Deus criou os povos e as nações, dentre elas o Japão com seus pequenos arquipélagos, cheio de montanhas e florestas, as quatro estações do ano definidas. Os escassos recursos naturais fizeram com que japoneses seguissem rígidas normas de vida coletiva, na necessidade de preservação de materiais que dispunham a fim de ter abastecimento ao longo do ano. O Brasil, ao contrário, possui um imenso território tropical, com poucas mudanças climáticas, cheio de recursos naturais, campos e matas, animais silvestres e um povo otimista, que optou pela liberdade de vida. Isso deixou os brasileiros despreocupados.

O Brasil ocupava o 8° lugar no cenário econômico mundial, mas o cônsul alertava para um problema sério: desequilíbrio na distribuição de renda. Com população de 150 milhões de habitantes, o mercado era pequeno e o poder de compra menor que o de Tóquio. Uma das causas: o sistema tributário, leve para os ricos e rigoroso para os pobres, em contraste ao japonês.

E faltava estabilidade na política econômica — na época houve seis planos econômicos. “Não havendo estabilidade na economia, não há tranquilidade no trabalho”, apontou. Temendo sempre o anúncio de um choque econômico, fica impossível investir em recursos humanos e na produção. Como limitadores da inflação produzem efeitos imediatos. São planos por demais simplistas.

Quarenta anos se passaram e as reflexões do cônsul continuam atuais.