Concurso literário de poesias e crônica

150 anos da Imigração Polonesa no Paraná

Luiza Nelma Fillus

Nesta edição, o Jornal FOLHA DE IRATI publica a crônica classificada em 1º lugar no Concurso Literário de Poesias e Crônicas, em homenagem aos 150 anos da Imigração Polonesa no Paraná, realizado em 2021. Alternadamente serão publicadas nas próximas edições as crônicas classificadas em 2º e 3º lugares. O referido concurso foi realizado pelas seguintes instituições: ALACS, (Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro Sul do Paraná, BRASPOL (Núcleo de Irati da Representação Central dos Poloneses no Brasil) e NEES (Núcleo de Estudos Eslavos – UNICENTRO), com o objetivo de escrever acerca do imaginário da cultura polonesa e/ou histórias da imigração polonesa no Brasil.

1º LUGAR:O RÁDIO E AS BATATAS

CECÍLIA SZENKOWICZ HOLTMAN – SÃO JOSE DOS PINHAIS – PR

Isso aconteceu há muitas décadas atrás, lá nas terras da Colônia Murici, um lugar de bonitas colinas com campos de um verde sem fim, que mostram para o mundo a força e o trabalho do imigrante polonês e seus descendentes.
A luz elétrica demorou a chegar por estas paragens, a primeira linha de energia instalada só foi inaugurada nos idos de 1958 e contemplava apenas a Igreja e a Escola. Até então, reinavam absolutos nas noites os lampiões e lamparinas.
Mas, uma vez que a linha principal chegou até o centro da Colônia, os colonos um pouco mais abastados solicitaram este conforto para suas casas. E com a energia elétrica, algumas atividades passaram a ser exercidas com o auxílio de motores, facilitando as árduas tarefas que demandavam de muito esforço, afinal, na colônia, sempre havia muito trabalho. Seja no campo, seja nas dependências da propriedade, o dia-a-dia do colono era de muito suor e abnegação.
Não apenas no paiol, mas também dentro das casas, foi possível pensar em comodidades que antes não tinham sequer espaço; e entre as novidades que entraram nas casas além das lâmpadas, um dos destaques era o rádio.
Ah! O rádio! Que aparelho incrível! Como era bom poder ouvir as notícias do mundo, ouvir as músicas favoritas na vitrola, encher a casa de sons! Mas essa máquina maravilhosa trazia inúmeros segredos e instigava a curiosidade dos pequenos.
Certa feita, na propriedade da família Majczak, o patriarca adquiriu uma radiola. O aparelho era um bem precioso, que merecia destaque na sala de estar. Apenas o pai e a mãe podiam manipulá-lo, caso contrário, algo poderia estragar o aparelho caríssimo. Tudo isso contribuía para que os filhos do Sr. Majczak sentissem uma grande curiosidade a respeito desta caixa mágica!
O trabalho na chácara era contínuo e envolvia todos os familiares. Os mais velhos saiam com o pai para a cidade ajudar nas entregas ou iam para a lida no campo e os mais novos ajudavam a mãe nas tarefas da casa.
Martin, um dos filhos mais novos, menino perguntador, queria por que queria entender como o rádio funcionava. Todo o dia questionava sua mãe que, com seu pouco estudo, não encontrava uma resposta que satisfizesse a curiosidade da criança.

  • Ah! Meu filho, como vou saber uma coisa dessas? A notícia vem pelo ar! Agora vá logo descascar as batatas que eu pedi! – dizia a matriarca, com um belo sotaque polonês.
    E lá se foi o Martin, descascar as batatas no paiol, sem entender direito como a “notícia vinha pelo ar”.
    Como todo paiol da colônia, esse também estava recheado de ferramentas e guarnições para a família e os animais da propriedade: batatas, milho, feijão, abóboras colhidos ao longo do ano para o consumo próprio.
    Naquele dia Martin não estava sozinho! Adentraram no paiol, atrás das cascas de batatas, as galinhas que estavam soltas pelo pátio. Ousadas, as aves começaram a bicar cada vez mais próximas de Martin, tirando sua concentração.
    Ele as espantou uma, duas, três vezes, e nada. As danadinhas voltavam ao seu redor buscando as cascas que caíam da gamela. Então, Martin lançou uma batata na direção delas e, sem querer, acertou bem na cabeça da penosa.
    E agora? O que fazer? Se a mãe descobre que ele matou uma galinha, e nem era domingo pra merecer uma sopa! Com certeza ia levar umas boas chineladas!
    Martin não pensou duas vezes: pegou a galinha morta e levou-a para os fundos da chácara, que dava para um alagadiço, na beira do rio, e assim deu sumiço na mesma. Mas, ao voltar para o paiol, eis que uma ideia perturbadora lhe passou pela cabeça: “Se a notícia vem pelo ar, a essa altura, mamãe já ouviu no rádio que matei a galinha!”
    Cabisbaixo, sentindo o peso da responsabilidade, Martin foi até a cozinha e, antes que sua mãe pudesse falar alguma coisa, foi logo dizendo:
  • Sim mamãe, sei que a senhora já escutou pelo rádio… Mas ela estava bicando minhas pernas, tentei espantar várias vezes e ela não saiu. Não foi minha intenção acertar a batata com tanta força. Mas isso tudo a senhora já sabe, não é mesmo? A notícia já veio pelo ar.
    A mãe parou suas tarefas no fogão, por um instante, para entender o que o filho dizia. Então olhou para a radiola desligada. Após uma pausa que para Martin parecia ser uma eternidade, a matriarca teve uma ideia sagaz e disparou:
  • É. Ouvi mesmo. E você? Não ouviu pelo ar que te mandei trazer a galinha para casa? Vá logo buscá-la que a água já está quente para depená-la.
    E assim, pela novidade do rádio, nunca mais seus filhos puderam lhe esconder alguma travessura, afinal, qualquer coisa que fizessem, por mais longe que fosse dos seus olhos, a notícia chegaria antes das crianças em casa!