Entenda por que a perda de olfato e paladar acontece e como tratar

Um dos sintomas da infecção pelo coronavírus, a perda de olfato pode persistir mesmo após a cura da doença. Entenda os motivos e como é tratada

Dr. Bruno L. Alencar
Otorrinolaringologista
CRM 18299 RQE 13511

A perda de olfato é um dos sintomas mais característicos da contaminação pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). E, diferentemente do que se vê em outras enfermidades respiratórias (rinite, sinusite, resfresfriados), na Covid-19 essa falha ocorre de forma abrupta e intensa.
O otorrinolaringologista Dr. Bruno L. Alencar, explica que a causa ainda não está totalmente clara, assim como muita coisa que envolve a Covid-19, já que a doença é nova e complexa. Segundo ele, já é possível afirmar que o coronavírus afeta as células responsáveis pelo olfato e pelo paladar.
Esse impacto culmina não apenas no sumiço total ou parcial da capacidade olfativa, mas também na dificuldade em distinguir corretamente os odores, levando o portador a sentir cheiros inexistentes naquele momento, como o de fumaça. “Isso demonstra que as células olfativas não estão funcionando corretamente”, raciocina o médico.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com camundongos, primatas não humanos e pessoas, já trouxe indícios de como esse mecanismo se dá na prática.
Assim como a maioria dos sintomas, a perda de olfato costuma se resolver um tempo depois que o paciente se cura. No entanto, parte dos infectados permanece por um período maior sem esse sentido, o que gera bastante incômodo.


O tratamento para a perda de olfato

Os infectados pelo Sars-CoV-2 que deixam de sentir cheiros são tratados por otorrinolaringologistas com um protocolo usado mundialmente em qualquer caso, independentemente do diagnóstico de Covid-19.
Se o problema persistir, que é o que tem ocorrido com parte dos portadores do coronavírus, é possível indicar uma terapia também realizada no mundo todo, conhecida como treinamento olfatório
A ideia dessa “reabilitação” é estimular várias regiões do nervo olfatório. Funciona assim: o paciente leva para casa recipientes com certos ingredientes dentro, como hortelã. Ele não consegue enxergar o conteúdo, apenas sentir o aroma. Todo dia ele precisa cheirar os frascos por 10 segundos e tentar identificar o que tem ali, a resposta fica embaixo do pote. Se o indivíduo não acertar a identificação, segue com o treinamento duas vezes ao dia.
Se algum dos cheiros for reconhecido (mesmo que de forma leve, como se estivesse bem distante), o médico conta que o paciente também deve continuar focado no treino porque é isso que fará seu olfato evoluir.
Se o sentido não retornar corretamente ou não evoluir como o esperado, os especialistas lançam mão de remédios para auxiliar na recuperação.
O tratamento pode ser realizado normalmente em casa, desde que haja acompanhamento. Ele não requer internação ou isolamento. Mas, sem auxílio médico, não é possível identificar quais percepções foram afetadas e em quais intensidades.
O quão comum é a perda de olfato na infecção pelo coronavírus?
O médico relata que as informações sobre a incidência divergem. Os dados divulgados em agosto do Estudo de Evolução da Prevalência de Infecção por Covid-19 no Brasil (Epicovid19-BR), conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), mostrou que 57% dos infectados relataram alteração na capacidade de sentir cheiros e gostos. Até aquele momento, os cientistas haviam entrevistado quase 90 mil pessoas pelo Brasil.