Após um mês das enchentes no RS, iratiense conta como foi viver a maior tragédia climática da história no estado

Pai e filho estavam na cidade de Canoas quando a inundação, que afetou um total de 471 municípios do RS, iniciou

Karina Ludvichak e Leandro Bianco

No dia 29 de maio, completou um mês desde o início das ocorrências ligadas às fortes chuvas no Rio Grande do Sul. Considerado por especialista como a maior tragédia climática da história do estado, os eventos causados pelas chuvas intensas atingiram 471 dos 497 municípios do RS, de acordo com balanços da Defesa Civil, o que representa cerca de 95% de todas as cidades gaúchas.

Até o momento, foi constatado que as enchentes no RS provocaram a morte de 172 pessoas. Ainda, foram afetados mais 2,3 milhões de pessoas em todo o estado, no qual mais de 581 mil ainda permanecem desalojados e 42 desaparecidos.

Porém as chuvas não afetaram apenas os habitantes do estado gaúcho. Dois iratienses, Sandro Neves e Sandro Neves Junior (pai e filho), passaram por momentos de agonia vivendo de perto o ocorrido, enquanto um de seus caminhões era coberto por água.

IRATIENSES

Sandro Neves Junior sempre viaja com seu pai, com dois caminhões, pois possuem uma transportadora que atua na área de transporte rodoviário de cargas. De acordo com Sandro, a profissão de caminhoneiros é uma tradição em sua família, a qual vem de gerações, desde seu tataravô.

Segundo o caminhoneiro, seu pai e ele sempre passavam pelo Rio Grande do sul, e no dia do ocorrido estavam em Canoas, uma das primeiras cidades a ser atingida pelas chuvas intensas, carregando fertilizantes para então voltarem a Irati. Mas antes que pudessem retornar foram surpreendidos pelo grande volume de chuva. “A gente foi surpreendido pela água. Estávamos no posto de combustível que ficava a 20 km do rio, impossível chegar água, claro, mas a água subiu de madrugada, foi por volta das 2h às 5h da manhã, então pegou todo mundo de surpresa. E quando a gente se deparou com a água, já estava cobrindo os tanques dos caminhões”, relembra.

Sandro conta que naquele momento todos começaram a tentar tirar seus caminhões do lugar, alguns conseguiram e outros não. “Eu, com a graça de Deus, consegui tirar o meu (caminhão), o meu pai já não conseguiu tirar o dele. Tentamos tirar o caminhão dele arrastando, tentando desengatar, porém a água já estava muito alta e estava subindo cada vez mais, muito rápido.”

“Então nós não tínhamos muito tempo de ficar ali tentando alguma coisa, porque poderíamos correr o risco do meu caminhão também ficar alagado, foi aí que a gente decidiu tirar um (caminhão) pelo menos, e abandonar o outro lá, porque não ia ter o que fazer”, contou. Eles então saíram daquele local e foram para outro posto, onde era mais seguro.

Somente alguns dias depois da água baixar, pai e filho conseguiram resgatar o caminhão. “Após uns 10 dias que a água baixou, a gente retornou lá, para o local, para poder fazer o resgate do caminhão, tirar e trazer para casa”, conta.

Eles ainda não sabem qual será o valor total de prejuízo. “A gente não conseguiu ainda fazer um orçamento total dos gastos para arrumar o caminhão. Mas vai ficar em torno de uns R$ 40.000, para mexer com parte de mecânica, parte de elétrica e a parte de estofaria de dentro do interior do caminhão”, ressalta Sandro.

Sandro diz que vai continuar viajando com seu caminhão, enquanto o outro está no conserto, e ainda fez questão de agradecer a todos que ajudaram, principalmente aos amigos do seu pai, que tiveram a iniciativa de fazer uma rifa em prol de levantar dinheiro para arcar com o conserto, os auxiliando bastante.

“Isso para nós é só um bem material, que a gente recupera. Então, agora só resta para gente continuar em orações para o povo, para que eles se recuperem, que ninguém mais seja prejudicado, e que Deus consiga abençoar a todos lá”, enfatiza.

RELATO

Sandro Neves Júnior relata como foi observar de perto uma das maiores tragédias do estado: “Para ser bem sincero, eu não consigo nem achar palavras para descrever ou explicar o que a gente viveu lá naqueles dias. Porque é só estando lá mesmo para você ver o quão grave é, acompanhando o desespero do povo, vendo eles sendo resgatados e os voluntários ajudando. Ambulâncias, barulho de helicóptero, gente gritando, então, realmente foi uma experiência bem traumatizante”, declara.

Os caminhoneiros presenciaram momentos de caos quando a enchente começou.O local onde nós estávamos ficou muito movimentado, com muita gente correndo com crianças no colo, fazendo correntes para não deixar seus filhos para trás, gritando desesperados procurando seus familiares, isso é de partir o coração de qualquer um”, disse Junior.

Sandro destaca que toda a população foi muito prejudicada pela enchente, e que naquele momento cada um ajudava da maneira que conseguia. “Enquanto tinham os civis com barcos e Jet-ski, fazendo o resgate também com veículos para ajudar as pessoas, nós ali da mesma maneira, fazíamos as nossas refeições na cozinha do caminhão já em grande quantidade para quem estivesse com fome pudesse comer. Sempre temos bastante galões no caminhão, então arrumávamos galões e ajudávamos a pegar combustível para levar para o pessoal que estava fazendo o salvamento”, finaliza o motorista.

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