Censo de Aves Rapina é realizado no Parque Estadual do Guartelá no Paraná

Águias e urubus-rei são os alvos do monitoramento pelos pesquisadores que registraram até um tamanduá-bandeira

Assessoria

Uma equipe de pesquisadores em aves, realizou do dia 27 ao 29 de setembro deste ano, mais uma etapa do estudo com aves de rapina no Parque Estadual do Guartelá, Tibagi (PR). A pesquisa é conduzida há mais de 7 anos pelo ornitólogo, Pedro Scherer Neto, e demais profissionais que compõem a PSN A Foundation, no monitoramento dessas aves predadoras no parque e região. As aves de rapina são animais que ocupam o topo da cadeia alimentar na natureza, ficando responsáveis pelo controle populacional das presas, que normalmente são compostas por outras aves e pequenos mamíferos; e na limpeza do ambiente quando algum animal morto é então consumido pelas aves saprófogas (urubus), evitando que haja contaminação do lençol freático por bactérias presentes na matéria orgânica em decomposição. Esses predadores necessitam de uma ampla área nativa como território de vida e abundância de alimento para sobreviver e reproduzir, portanto, além da função ecológica que cada ave de rapina realiza no meio ambiente, a presença e quantidade desses animais na região pode avaliar o grau de saúde do ecossistema em questão, os Campos Naturais associados com a Floresta de Araucárias.
Para tal avaliação, duas espécies de rapinantes formam o objetivo central do trabalho, a águia-cinzenta (Urubitinga coronata) e o urubu-rei (Sarcoramphus papa), espécies carnívoras presentes ao longo da Escarpa Devoniana mas com diferentes realidades ecológicas sobre a paisagem. O urubu-rei, carniceiro de grande porte e coloração branca na idade adulta, ocupa as porções mais proeminentes da escarpa, onde a topografia acidentada forma vales com longos paredões rochosos. Essa paisagem natural favorece a reprodução do urubu-rei que faz o ninho na fenda da escarpa, tornando o vale do rio Iapó uma importante região em condições favoráveis para a espécie residir e gerar novos indivíduos na população. Por um outro lado, a águia-cinzenta é uma espécie difícil de observar na natureza, é naturalmente rara, e a única ameaçada de extinção dentre todas espécies de rapinantes que são monitoradas pelos pesquisadores. Trata-se de uma águia de porte avantajado, coloração cinza quando adulta, cauda curta e um penacho atrás da cabeça. Essa espécie, diferente do urubu-rei, constrói o ninho na forquilha ou copa das árvores com gravetos, e seus hábitos reprodutivos no Paraná são desconhecidos.

A equipe então permanece em locais estratégicos onde haja amplo ângulo de visão sobre o vale do rio Iapó no interior do parque, para identificação e contagem dos urubus-rei, bem como percorrer as trilhas e estradas da região para avistar a águia-cinzenta que costuma ficar pousada nas torres de energia, árvores altas e arenitos.

O urubu-rei foi avistado até agora em todas as campanhas da pesquisa, é uma espécie que sempre está presente no parque e o número de avistamentos confirma essa afirmação. Além disso, informações acerca da reprodução desses carniceiros também foi levantada pelos pesquisadores. Na última contagem os ornitólogos identificaram x imaturos em diferentes níveis de plumagem. Nessa espécie o jovem apresenta a plumagem toda negra no primeiro ano de vida e vai alterando para o branco com o passar do tempo. Isso aponta que há disponibilidade de comida e ambiente para nidificação. O número de jovens de diferentes idades também revela aproximadamente quantos casais de urubu-rei estão ativos, sendo a mesma quantidade de jovens contabilizados. Nessa espécie, a fêmea gera apenas um único filhote por estação reprodutiva, e quando ele abandona o ninho, fica ainda acompanhando os pais por mais um ano até atingir a independência por alimento.

Já para a águia-cinzenta não houve avistamentos. É comum durante os trabalhos de campo não avistar essa espécie, e uma das explicações é que sua área de vida é muito grande e com alta capacidade de deslocamento, além de haver poucos indivíduos na natureza. Contudo, em outras fases anteriores dessa pesquisa, um indivíduo imaturo foi avistado pousado na torre de energia, mostrando que a reprodução dessa águia ao menos está sendo viabilizada na região.

Todo o esforço dos pesquisadores para saber como as populações de rapinantes estão se comportando na região do parque, também trouxe um registro inédito de um tamanduá-bandeira caminhando calmamente no interior da unidade de conservação. Há tempos que a espécie não era vista e muito menos fotografada de acordo com o relato de um funcionário do parque.

O tamanduá-bandeira atualmente é um dos mamíferos que corre maior risco de desaparecer por completo do Paraná. Ele e a águia-cinzenta dividem a mesma categoria de ameaça, Criticamente Ameaçado de extinção. Esta é a última posição dentro do nível de ameaça para as espécies silvestres que antecede a categoria de extinto na natureza em território paranaense.