Santa Casa realiza movimento e pede novo reajuste nos valores da tabela do SUS

Hospital cogita encerrar atendimentos eletivos caso não haja reajuste nos repasses feitos, que não têm alteração desde 2013

Jaqueline Lopes

A Santa Casa de Irati realizou um ato na terça-feira (19) em que suspendeu as consultas e cirurgias eletivas como forma de apoio à campanha “Chega de Silêncio”, propostas pelas Santas Casas, para expor a crise que os hospitais passam em relação às finanças. A principal reivindicação do movimento é o reajuste nos valores da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS).

O ato foi um movimento único e teve como objetivo a conscientização da população que utiliza o atendimento eletivo da Santa Casa, para ver a falta que fazem esses procedimentos e a importância que eles têm.  Serviu como forma de fechar o hospital na região por um dia para o SUS. “Tentamos movimentar a população no sentido de olhar para a Santa Casa. O hospital está em um trabalho de melhoria e ampliação no atendimento, mas para isso precisa ter o recurso”, comenta o provedor da Santa Casa, Dr. Ladislao Obrzut Neto.

“É uma situação que está muito alarmante para todo o contexto da saúde pública do Brasil. Por isso esse movimento, para ver se a gente consegue sensibilizar os governantes para que seja revisto o valor dos hospitais” – Sidnei Barankievcz, diretor administrativo da Santa Casa de Irati

Atualmente, o hospital de Irati tem 320 funcionários, e uma divida mensal de R$ 460 mil. Quem faz o repasse dos recursos são os governos Federal e Estadual, porém a tabela do SUS está defasada, sem reajuste desde 2013. Além disso, se for aprovado o novo piso salarial da enfermagem já nos próximos dias pode ser um rombo nas finanças, caso não haja uma revisão na tabela. O médico enfatiza que a Santa Casa não está sendo remunerada adequadamente, e esta é uma condição de todas as Santas Casas do Brasil, que inviabiliza o funcionamento.

Para o ato, o provedor e Sidnei Barankievcz, diretor administrativo da Santa Casa de Irati, fizeram uma explanação aos funcionários sobre a real situação. E enfatizaram que o reajuste é primordial, pois todas as Santas Casas têm mais de 50% do custo mensal refletido em salários, e todo ano há aumento, “mas sem reajuste nos repasses tanto do governo federal e estadual está se tornando inviável, porque o custo tem aumentado cada vez mais”, destaca Barankievcz. Ainda, ele completa que a maneira que encontraram de conviver com o prejuízo é parcelando muitas compras, porém acabam pagando mais, pois acrescenta-se os juros ao valor.

"R$460 mil"
Valor do deficit mensal da Santa Casa de Irati atualmente.

Situação financeira

De acordo com os dados apresentados, as receitas operacionais da Santa Casa de Irati, hoje, giram em torno de R$ 2.130.000,00, mensais, enquanto as despesas chegam a R$ 2.620.000,00, em média, por mês, resultando em um prejuízo mensal de mais de R$ 460 mil. Os prefeitos já se propuseram a buscar ajuda e conseguir uma solução.

Além disso, tramita no Congresso a PL/2564/20 novo piso salarial para a enfermagem, técnicos e auxiliares, também o Sindicato pede 15% de reajuste. Se aprovadas essas leis, os prejuízos mensais passarão de R$ 1,8 milhão, o que dificultará os atendimentos eletivos dentro do hospital de Irati.

Outra questão que também gerou esse valor alto nos custos do hospital é o aumento da inflação. O provedor da Santa Casa de Irati explica que o aumento de 11% nos medicamentos, assim como a emergência hídrica de energia com o aumento na conta de luz, a guerra da Ucrânia, que interfere no preço dos trigos e combustíveis, também prejudicam as finanças do hospital. “O que não aumenta é o reajuste pago pelos procedimentos médicos da Santa Casa. Todos que trabalham aqui são importantes, precisam ter o reajuste salarial, mas se esse piso vier acontecer amanhã, vai inviabilizar muito o atendimento”, comenta o provedor.

Reunião com os prefeitos e possível solução

Na semana passada, o provedor e o diretor administrativo estiveram em reunião com os prefeitos da região e solicitaram apoio. Pois somente Irati tem convênio com o hospital, no valor de R$ 100 mil para mais um mês, e os demais municípios da região da Amcespar também utilizam a Santa Casa. Os gestores se comprometeram em conversar com os deputados da base para que isso seja levado até os governos.

Em relação aos convênios com as outras cidades da Amcespar, o provedor explica que “todos os gestores colocam que a dificuldade é como justificar esse repasse da Santa Casa perante o Tribunal de Contas. Mas se comprometeram em ver com os deputados de base política como podem resolver isso”, disse.

Hospital pede ajuda para continuar com consultas e cirurgias eletivas | Foto: Esther Kremer

A presidente do Consórcio Intermunicipal de Saúde (CIS/Amcespar) e prefeita de Fernandes Pinheiro, Cleonice Schuck, comenta que terão que analisar uma forma para um aporte dos municípios, mas vão dar apoio quanto ao enviar essa solicitação a frente ao governo federal e estadual. “Essa necessidade de aporte financeiro vem de uma forma preocupante para nós, como gestores, pela legalidade de como fazer essa transferência para a Santa Casa. Estaremos analisando dentro das possibilidades esses repasses. Mas o que formamos é a união dos prefeitos, tanto na Marcha em Brasília, como também, junto ao Estado do Paraná, via Secretaria de Saúde, para melhorar e viabilizar esses repasses, dando continuidade no atendimento da nossa região”, comenta a presidente.

De acordo com ela, hoje, o valor do repasse dos municípios teria que ser em cerca de R$ 360 mil para os plantões até o final do ano, e mais um aporte a parte para compensar o Programa Opera Paraná, que vem com um custo menor para os municípios, mas por alegação da Santa Casa não comporta o atendimento e o gasto, o custo das cirurgias que se torna bem mais alto e, assim, terá prejuízo. “Precisamos avaliar isso junto ao governo do estado. Agora, de forma interna, os prefeitos e a Sesa vão achar uma solução para este problema. Nós, como gestores, não podemos nos alongar no valor e nem no período. É um momento de procurar uma boa solução”, destaca Cleonice.

Ainda, na próxima semana, haverá a Marcha dos Prefeitos, em Brasília, e todos os gestores estarão na capital do país e levarão esse assunto como pauta. Até o final do mês, o provedor espera saber como vai ficar essa situação e se terá uma resolução.

Caos na saúde da região

Segundo Barankievcz, com esses aumentos salariais e sem reajuste na tabela do SUS, muitas Santas Casas teriam que fechar os procedimentos eletivos, e seria um caos não só na região, mas em todo o Brasil. Alguns hospitais terão menos dificuldades devido aos planos de saúde e particulares que atendem, mas aqueles que dependem, praticamente do SUS, como é o caso de Irati, que tem cerca de 94% dos atendimentos gratuitos segundo o diretor administrativo, seria um cenário complicado. “É uma situação que está muito alarmante para todo o contexto da saúde pública do Brasil. Por isso esse movimento, para ver se a gente consegue sensibilizar os governantes para que seja revisto o valor dos hospitais”, finaliza o administrador.