Carnavalesco iratiense estreia no grupo especial do RJ

Leonardo Bora faz história na Marquês de Sapucaí; dupla formada com Gabriel Haddad estreia no grupo especial, assinando o carnaval da Grande Rio

O desfile do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro teve a estreia de um iratiense neste ano. Leonardo Augusto Bora, 33 anos, é natural de Irati, filho de Sérgio Luiz Bora e Ana Maria Gadens Bora, e já havia estreado como carnavalesco na Marquês de Sapucaí em 2018, quando assinou o desfile da Acadêmicos do Cubango.

A história dele com o carnaval, no entanto, começou quando ainda era criança. “A paixão pelo carnaval surgiu na primeira infância. Minha família sempre apreciou e participou dos festejos de carnaval em Irati, que na época era um dos maiores do interior do Paraná”, lembra. Na época, o carnaval de rua em Irati era expressivo, um dos maiores do interior do Paraná, havia concurso de blocos e fantasias e desfile de escola de samba na avenida Munhoz da Rocha. Os adereços e alegorias eram confeccionados no pavilhão do Parque Aquático e transportados pelas ruas da cidade até o local do desfile. “Eu me debruçava sobre o muro para ver esses elementos passando pela rua Vicente Machado, na rua da nossa casa. Eram parcialmente cobertos por lonas.”

Ana Maria, mãe de Leonardo, recorda que o filho ainda pequeno reunia objetos diversos em casa e fazia o próprio desfile de carnaval. Já aos 7 anos, Leonardo desenhava carros alegóricos e fantasias nos cadernos da escola, fruto do que havia assistido na TV no desfile das escolas de samba de 1993.

Leonardo passou a auxiliar no carnaval do município até por volta de 2004, quando a festa entrou em um processo de esvaziamento, segundo ele.

Já morando em Curitiba para continuar os estudos, Leonardo se aproximou do carnaval de São Paulo em 2007. “Ali tive a certeza de que eu teria de trabalhar com isso, me reconectar com isso.” Ele descobriu um concurso chamado Carnaval Virtual, realizado pela internet, em que artistas do Brasil e do mundo todo podem apresentar desenhos de carnaval. “São passarelas virtuais em que as pessoas acompanham as sequências de fantasias, carros alegóricos, e cada artista desenvolve o seu próprio enredo. É uma forma de produzir portfólio”, afirma. Dessa forma, estabeleceu contato com pessoas do Rio de Janeiro ligadas a escolas de samba e, mesmo à distância, prestou serviços para o carnaval do Rio de Janeiro.

Licenciado em Letras Português-Inglês pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Paraná(UFPR), Leonardo mudou para o Rio de Janeiro em 2012 para fazer o Mestrado, pesquisando as narrativas de enredo de Rosa Magalhães, carnavalesca importante para o cenário brasileiro. Então, ao lado de outros seis artistas, integrou a comissão de carnaval da Mocidade Unida do Santa Marta. “Lá eu pude vivenciar o início da trajetória enquanto artista, materializando um projeto, colocando a mão na massa”, diz Leonardo.

Dessa comissão, surgiu a parceria com Gabriel Haddad. Os dois seguiram para a Acadêmicos do Sossego, com a qual também foram campeões no grupo B, e em 2018 chegaram à Marquês de Sapucaí.

Em 2018 e 2019, com a assinatura de Leonardo e Gabriel, a Acadêmicos do Cubango ganhou o Estandarte de Ouro de Melhor Escola, chegando ao melhor resultado da agremiação em 2019, com o vice-campeonato do grupo de acesso do Carnaval do Rio. “Principalmente por essa trajetória na Acadêmicos do Cubango, com dois carnavais que chamaram a atenção do público e da crítica, veio o convite para a Grande Rio”, conta. E aí veio a estreia no grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro.

O convite surpreendeu. A vontade de buscar caminhos narrativos que reconectassem a Grande Rio com sua base comunitária, a cidade de Duque de Caxias-RJ, fez com que os carnavalescos chegassem à história de Joãozinho da Gomeia, pai de santo importante para a história do candomblé do Brasil. “Ele é pouco conhecido do grande público, mas muito conhecido do povo de axé. E merecia essa homenagem por uma escola de samba. É uma personalidade múltipla: negro, nordestino, homossexual, que participou ativamente de todos os festejos carnavalescos da cidade, transitou pelo teatro de revista, pelo cinema, criou um grupo de balé afro, fazia do seu terreiro em (Duque de) Caxias uma espécie de grande quilombo, e dialogou com toda a cena artística, cultural e política nas décadas de 1940 a 1960”, aponta o iratiense.

O resultado de toda a pesquisa e do processo criativo foi um desfile bem feito. Na soma dos pontos, Grande Rio terminou empatada com a Viradouro. “Nos quesitos que competem aos carnavalescos, a Grande Rio ficou em primeiro lugar. Só não foi campeã pelo critério de desempate, que é evolução, o ponto em que a escola teve problemas devido à demora na acoplagem do carro abre-alas”, explica Leonardo.

A Grande Rio faturou seis Estandartes de Ouro: melhor escola, melhor samba-enredo, melhor enredo, melhor puxador, melhor Ala das Baianas, e o recém criado prêmio Fernando Pamplona para o Abre-alas da escola.

Mestre e Doutor em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Leonardo diz que, talvez, esse tenha sido o maior desfile da história da Grande Rio. “O sentimento é de muita gratidão, muita alegria em ver a comunidade feliz, satisfeita. É a certeza de que desenvolvemos um grande trabalho, que tocou o coração de cada desfilante da tricolor de Caxias.”

A dupla de carnavalescos, Leonardo e Gabriel, permanece na Grande Rio para o desfile da escola em 2021. “Já estamos pensando em enredo.”